Os cães e a solidão

A cara de tristeza do Theo quando a mommy sai de casa
A cara de tristeza do Theo quando a mommy sai de casa

 

Hoje quero falar com vocês um pouquinho sobre um assunto que é dúvida para muitos tutores: como lidar com as situações em que o peludo ficará sozinho.

Seja por pouco ou muito tempo, em situações rotineiras ou esporádicas, para muitos tutores e cães os momentos de solidão são um problema. Problemas como choros, latidos, destruição, necessidades em locais errados, ou mesmo relatos de “depressão” nos peludos, são bastante comuns, infelizmente.

Embora não haja um número exato de horas que um cão pode ficar sozinho em casa, é de senso comum que a solidão não faz bem para nossos peludos. Cães são seres sociais, e o convívio com a família é vital para seu equilíbrio e bom comportamento. Um cão que é obrigado a passar muitas horas sozinho, sem ter sido adequadamente adaptado a isso, certamente vai desenvolver algum (senão todos) os problemas descritos acima. Portanto, é papel do tutor, assim que decidir adotar ou comprar um cãozinho, planejar muito bem como será a adaptação do pet às situações de solidão. Os pontos mais importantes a serem levados em conta são:

– Entrar numa rotina diária de exercícios físicos ou passeio com o pet.

– Até ter certeza que o cão está acostumado, providenciar um local neutro para deixar o cão nos momentos de solidão, onde ele não terá tantas possibilidades de fazer bagunça (se for filhote, pode ser um cercadinho na sala, se for um cão maior ou mais velho, a cozinha e área de serviço, por exemplo), mas ainda assim não deverá ficar isolado da casa (trancado no banheiro, por exemplo).

– Oferecer brinquedos adequados para que o cão tenha coisas para se distrair enquanto está só, além de associar esses momentos com coisas boas e divertidas – os brinquedos mais indicados são aqueles que liberam alimento ou ossos, se liberados pelo veterinário.

– NUNCA associar solidão com broncas ou punições. É muito comum ver tutores que trancam o cão em algum cômodo “de castigo”, depois que o pet faz algo errado. Essa é a melhor forma de ensinar o cão a odiar ficar só, pois entende que foi deixado sozinho pois o tutor está muito bravo com ele. O correto é associar a solidão com algo muito bom, seja a entrega um brinquedo novo, um osso, ou mesmo a hora de se alimentar.

– Enquanto estiver em casa com o peludo, reservar momentos para interagir exclusivamente com ele: treino de comandos, jogar bolinha, fazer cabo de guerra, sessões de carinhos e afagos são bem-vindos.

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Ofereça atividades, como brinquedos, para os momentos de solidão

É também uma queixa muito comum, tutores que relatam que seus cães pulam, latem, ficam muito agitados e não param quietos, assim que entram em casa ao chegar do trabalho. Pura falta de educação e dominância nestes cães, correto? ERRADO! Estes pobres peludos estão simplesmente morrendo de saudades dos seus donos, e estão demonstrando da forma que acham certa!

O jeito certo de chegar – Vamos compreender o lado do cão: Depois de horas de solidão, num ambiente “chato”, tudo o que o pet quer é a chegada dos familiares. Sua intenção com esses comportamentos é demonstrar que está feliz e quer interagir. Nosso papel: ensinar ao cão qual a forma ideal para isso. Veja o artigo sobre como ensinar comandos e comece um treininho com o cão! E também evite saídas e chegadas muito “emocionadas” – se você não quer que o cão pule em você, não deve deixá-lo muito excitado. Entre, deixe a bolsa no quarto, tire os sapatos calmamente, dê um “olá” bem discreto para o peludo, e quando ele estiver mais calmo fale direito com ele.

Outro cenário bem comum é vermos cães que vivem em quintais, no caso de casas, ou áreas de serviço ou varandas, no caso de apartamento, sem convívio com os humanos. Por mais que haja espaço para correrem e brincarem, e não estejam “confinados”, a ausência de companhia humana significa solidão, que pode causar problemas de comportamento. Por isso, deve-se proceder como no caso anterior, fazendo uma adaptação ao convívio familiar e situações de solidão, sem exclusão do pet! Um cão bem educado vai viver bem, tanto na presença quanto na ausência de pessoas, mas lembre-se: cães foram feitos para viver principalmente em família!

Excesso de presença – Se por um lado o excesso de horas sozinho é prejudicial para os cães, o contrário também é verdadeiro: existem muitos tutores que nunca deixam o cão sozinho, nem para ir ao banheiro! Alguns cães estão habituados a viver numa casa cheia de pessoas, e por isso se acostumam a ter sempre companhia; e alguns tutores, depois da chegada do pet, deixam de sair, e pedem a algum amigo, familiar ou funcionário, que fique com o cão quando precisa deixar a casa, “forçando” uma rotina de companhia 100% do tempo. Isso é extremamente prejudicial para o cão, que se torna totalmente dependente de companhia. É normal e saudável para um cão passar momentos sem pessoas (desde que devidamente adaptado e com atividades para realizar neste período), pois aprende a lidar com essa “frustração” como algo corriqueiro. E é nas coisas corriqueiras que devemos iniciar a adaptação: como falei anteriormente, existem tutores que levam seus peludos até para o banheiro, para que não fiquem sós durante o banho. Comece usando essas situações para incentivar um comportamento mais independente do cão: deixe um osso bem gostoso, e entre no banheiro. Faça o mesmo quando for preparar um lanche na cozinha, ou ler um email no escritório. O cão passará a se acostumar a não ficar colado no tutor, e com certeza essa independência será muito saudável para ele. Imagine que acontece uma emergência e você precisa ir ao hospital – sem o peludo. O quanto ele sofrerá desnecessariamente com essa separação, se não estiver acostumado a isso? Melhor prevenir do que remediar!

Portanto, as melhores dicas sobre cães e solidão estão aqui resumidas:

– acostume de forma gradual seu pet a ficar sozinho, dando sempre uma atividade legal para ele fazer enquanto estiver só.

– não prenda o cão sozinho como castigo.

– incentive a independência do peludo nas situações cotidianas, como ir ao banheiro e deixá-lo para fora.

– eduque o peludo para que ele saiba se comportar diante de pessoas, e também saiba se comportar nas situações de ausência de pessoas.

*** Por Juliana Nishihashi, Adestradora e Consultora Comportamental da Cão Cidadão

 

Por que os cachorros adoram dar beijo?

O Toddy é de longe meu filho mais beijoqueiro
O Toddy é de longe meu filho mais beijoqueiro

 

A maioria dos dogs adora dar beijo ou bezucão, como curto dizer. Por essa atitude, leia-se aquelas gostosas lambidas que eles dão na nossa boca e rosto. Claro que a primeira avaliação que fazemos desse comportamento é de que se trata de uma demonstração de carinho. Afinal, vamos confessar, a gente adora dar uma humanizada ao avaliar o comportamento dos nossos peludos, mas, na verdade os deliciosos bezucões têm uma explicação científica interessante, que vai além do amor que eles sentem por nós.

Lendo o ótimo livro “Super Interessante – A Mente do seu Cachorro”, da Luiza Sahd, descobri que esse hábito tem origem na ancestralidade dos cães. Estudando os caninos selvagens, os pesquisadores da Universidade da Califórnia descobriram que os filhotes de lobos, coiotes e raposas lambem o focinho das mães quando elas voltam da caçada. Eles fazem isso para provocar náuseas na mommy deles e comerem o que elas regurgitam. Ecaaaa!

Mas, você deve estar se perguntando, o que isso tem a ver com os beijos dos cachorros nos humanos? Ocorre que as nossas bocas são muitos saborosas para os cachorrinhos, assim como os lobos e os próprios humanos, eles possuem receptores de sabores doces, salgados, amargos, azedos e até terrosos. Aliás, entre os gostos mais atraentes estão os doces, que também pode ser explicado pela evolução. É essa sensibilidade que faz os bichos distinguirem uma fruta madura de uma que ainda não pode ser comida.

Outra comportamento interessante que aliás acontece muito aqui em casa é que os danadinhos preferem as bocas que contêm mais sabor. Explico. Eu e o meu marido fumamos, porém ele fuma muito mais do que eu, então, se eles forem escolher uma boca, vão preferir a minha, já que o cigarro tira boa parte do odor natural dos alimentos.

Bezucão do Toddy

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Bezucão do Toddy

Uma explicação adicional é que o bezucão também é uma forma de cumprimento ritualizado. Serve para dizer um “oi” e também para recepcionar um outro cão que volta à casa, e assim descobrir o que o outro andou fazendo na rua. Essa última explicação é muito verdade, o Toddy sempre lambe a boca da DJ quando ela volta dos passeios *rs*. As próprias cadelas também lambem as crias quando ficam longe por algum tempo. Ou seja, em resumo, o peludinho está sim demonstrando que gosta e confia em você quando te beija.

Ensinando comandos 

A DJ fazendo o comando "toca aqui"
A DJ fazendo o comando “toca aqui”

Quando um cão tem algum problema comportamental, como agressividade, medo ou compulsão, a última coisa que o tutor deseja é ensinar comandos e truques para o peludo, e sim, tratar e resolver totalmente o problema apresentado. Mas uma coisa que poucos sabem é que ensinar comandos é parte fundamental de qualquer treinamento e pode ajudar, e muito, a resolver problemas comportamentais e também evitá-los.

Tomamos como exemplo um cãozinho que tem uma compulsão terrível por lambedura. Vocês já devem ter visto cães branquinhos com as patinhas avermelhadas ou marrons, decorrentes do contato frequente da saliva com os pelos e também da inflamação na pele. Em muitos casos, compulsões têm a ver com genética, situações estressantes ou conflituosas para o cão e problemas no ambiente, entre eles, a falta de atividade adequada gerando ócio. 

Uma das formas de melhorar a atividade do cão é justamente exercitando-o, através de atividades mentais como os comandos. Pular, saltar, rolar, girar, buscar objetos, fingir de morto – todos esses comandos ao mesmo tempo exigem física e mentalmente do cãozinho, beneficiando o tratamento contra a compulsão. 

No caso de cães agressivos, daqueles tidos como “dominantes”, o comportamento violento geralmente nada tem a ver com dominância, e sim com falta de educação e regras, que podem ser facilmente impostas através de comandos – em vez de entrar num confronto com  o cão para que desça do sofá, simplesmente ensinamos ao cão o comando “desce”; em vez de dar tudo o que o cão quer de mão beijada, mostramos que ele deve se comportar para ganhar as coisas, realizando um simples “deita e fica” antes de ganhar o tão sonhado petisco ou brinquedo.

Comandos melhoram a comunicação com o cachorro

Atualmente, os comandos ensinados aos cães não são somente uma forma de exibição da “dominância” do treinador ou da “obediência e servidão” canina, mas sim uma forma de comunicação eficaz entre duas espécies que não falam a mesma língua.  Por isso, é importante saber como ensinar os comandos, para que eles sejam fonte de prazer e diversão para o cão (e para nós também!) e sempre executados prontamente. 

Vamos nos colocar no lugar do cão: uma pessoa precisa aprender rapidamente um novo idioma para conseguir se comunicar com seres desconhecidos, que têm regras e costumes diferentes. Essa pessoa aprenderá melhor e de forma mais eficaz se for coagida ou se for altamente motivada e orientada? Com certeza a segunda opção, que nos leva às técnicas baseadas em reforço positivo! 

Em outras metodologias, os comandos podem ser ensinados através da manipulação do próprio cão, com o treinador posicionando-o da forma desejada, ou ainda usando a guia para fazer com que o cão se movimente de acordo, mas é perceptível que os cães que aprendem através do reforço positivo têm uma relação muito mais amistosa com os comandos.

Já falei sobre o reforço num artigo anterior, onde explico que para condicionar um indivíduo e aumentar a frequência de qualquer comportamento, é necessário que esse comportamento seja recompensado – ou seja, reforçado. No caso dos cães, o reforço mais poderoso é o alimento, porém outras recompensas também podem ser interessantes, como brinquedos ou elogios. Mas no caso dos comandos, usamos o reforço positivo e a técnica de “indução”, para moldar os movimentos do cão, ensinando de forma simples, clara e rápida.

Veja como ensinar o comando senta e fica

Com a ajuda dessas figuras, retiradas do site Golden Meadows, fica mais fácil entender como fazemos a indução de um comando simples, como o “senta”. (o texto continua abaixo)

Infográfico do site http://goldenmeadowsretrieversnews.com/
Infográfico do site http://goldenmeadowsretrieversnews.com/

Com o petisco na ponta dos dedos, colocamos próximo ao focinho do cão, fazendo com que ele siga o petisco, como se fosse um “imã”. Levantando a mão delicadamente acima da cabeça do cachorro, é possível que imediatamente ele abaixe o quadril. Assim que ele se sentar por completo, recompense-o com o petisco.

– No início do treino de qualquer comando, trabalhe com o cão um local familiar, sem muitas distrações, como na sala de casa. Vá aos poucos variando o local para o cão não “viciar”. Por exemplo, muitas pessoas só pedem o comando “senta” na frente do armário onde ficam os petiscos, dessa forma o cão entende que o comando só vale neste lugar. Aos poucos, treine em locais diferentes, como no hall do prédio, na calçada de casa, numa rua próxima.

– É normal o cão não atender aos comandos em lugares muito estimulantes, como praças e parques com cães e pessoas, por isso, treine bastante em lugares normais e neste outros locais, leve um petisco especial para prender mais a atenção  do cão.

– Durante o aprendizado, o cão precisa ver e farejar a comida na mão que o induz a fazer o movimento desejado, porém com o tempo ele deve ficar independente desta comida, aceitando só os comandos gestual e verbal. Para isso, gradualmente “esconda melhor” o petisco na mão, fazendo o gesto de forma cada vez mais clara, até que não precise mais do petisco, e recompense o cão com a outra mão. Desta forma, ele prestará atenção no gesto e 

– Caso o cão não atenda o comando no primeiro pedido, evite ficar repetindo várias vezes o comando verbal. Provavelmente ele não está atendendo por estar distraído, ou talvez ainda não tenha aprendido totalmente. O ideal é fazer com que ele preste atenção em você: faça um som, pode ser um assobio ou algum barulhinho que chame a atenção do cão; elogie quando ele olhar para você; mantendo contato visual com ele, faça o pedido novamente, com comandos gestual e verbal bem claros, uma vez só. Recompense bastante.

– Para que o cão aprenda a fazer os comandos mesmo sem petiscos como recompensa, habitue-se a pedir sempre algum comando antes de fazer algo que o cão gosta, como por a coleira para passear, por exemplo. Peça o comando “senta”, e como recompensa o cão coloca a coleira para sair. O cão quer subir num sofá que não tem sempre acesso? Peça um “senta e dá a pata” e use o acesso ao sofá como reforço. Ao receber visitas, peça para o cão aguardar deitado o carinho das pessoas. As recompensas podem ser as mais variadas, lembrando da regra: “Recompensa é tudo aquilo que o cão gosta e deseja naquele momento!”.

*** Por Juliana Nishihashi, Adestradora e Consultora Comportamental da Cão Cidadão

Falando de pastores alemães 

O lindo pastor alemão. (Crédito: Anthony Beux Tessari/Wikimedia Commons)
O lindo pastor alemão. (Crédito: Anthony Beux Tessari/Wikimedia Commons)

Há 15 dias o Fantástico, da TV Globo, fez uma reportagem mostrando um “violento ataque de cães furiosos e descontrolados a um pedestre”, com o intuito de demonstrar qual era a forma correta de se proteger em caso de ataques de cães. Nesta reportagem, os cães pastores alemães foram retratados como animais perigosos, selvagens, praticamente máquinas letais prontas para o ataque.

Aqueles que , como eu, são amantes da raça e entendem o básico a respeito de comportamento animal, podem dizer absolutamente o contrário: cães pastores alemães, apesar de cães fortes e potentes, têm o potencial de ser o oposto do que foi mostrado: cães com alto grau de concentração, bastante focados, aptos a trabalhar lado a lado com o ser humano e interagir com ele de forma muito amistosa e afetuosa. 

Aliás, as características descritas acima podem representar muito bem qualquer raça, inclusive nossos ilustres vira-latas, levando em consideração a forma com que os cães são criados e educados. Qualquer cão tem potencial para ser uma “arma letal” e também para ser “o melhor amigo do homem”. Uma mistura de temperamento do indivíduo, genética e principalmente sociabilização e educação é que vão ajudar a determinar se o cão será um risco ou um amigo dentro de casa.

Eu e Ava, que já foi pro céu dos cachorrinhos
Eu e Ava, que já foi pro céu dos cachorrinhos

A reportagem polêmica esqueceu de mencionar que o pastor alemão, apesar de sua “má fama” – talvez endossada pela imagem de cão policial, somente capacitado para o ataque – foi criado para ser um versátil cão de trabalho. Quando desenvolvida por Max von Stephanitz, no século XIX, foram cruzados vários tipos de cães pastores, para que surgissem no pastor alemão o maior número de qualidades possível: robustez, força, agilidade, faro, entre outras. Não é incomum vermos pastores alemães trabalhando como cães de faro, tanto no resgate de pessoas como na busca a entorpecentes, cães de pastoreio, cães de companhia, e, por que não, cães de guarda. 

 

As cores do pastor alemão
As cores do pastor alemão

O temperamento desejável do pastor alemão aponta um cão equilibrado, firme e atento, mas como já disse anteriormente, não é somente temperamento que definirá como o cão se comportará. Dizer que o cão dessa raça deve ser de uma ou outra forma é negar que dentro da raça existem indivíduos diferentes, com suas características próprias. Se dentre os exemplares, um ou outro cão demonstra comportamentos indesejados, como agressividade, reatividade ou medo em excesso, certamente a sociabilização e o treinamento precoce não foram feitos da forma adequada. Isso com certeza não define a raça. 

Então, para todos aqueles que se assustaram com a imagem retratada na reportagem, e passaram a atravessar a rua ao verem um cão pastor se aproximando, não se preocupem: este cão, tão belo e altivo, tem muito mais a oferecer do que força e um ataque potente – o pastor alemão, bem criado e bem educado, pode ser um ótimo defensor, trabalhador, e principalmente, um maravilhoso e afetuoso companheiro.

*** Por Juliana Nishihashi, Adestradora e Consultora Comportamental da Cão Cidadão

Meu cão tem medo de tudo!

Basic RGBMedo de banho, medo de veterinário, medo de vassoura, medo de trovão, medo de fogos. Ok, muitos cães tem esses medos e consideramos “normal” que seja assim, afinal, a maioria dessas coisas pode ser assustadora ou negativa para os peludos. E medo de coleira? Medo de saco de lixo? Medo do guarda-chuva, da cortina e do espelho? Esses medos tão estranhos e aparentemente sem razão são os que mais deixam os tutores com a pulga atrás da orelha. O que teria motivado o cão a agir com tanto receio?

Uma concepção errada, porém muito comum, é que se um cão tem medo, ele com certeza foi mal tratado. Medo de vassoura – levou uma vassourada da faxineira. Medo do vet – a injeção o assustou. Mas e o espelho e o guarda-chuva? Que mal eles teriam feito ao peludo? O que muitas pessoas não sabem é que muitos cães desenvolvem medos – e até fobias – de coisas não familiares, às quais foram apresentados da forma errada.

Alguns cães tem, por conta da sua personalidade e temperamento, uma tendência a se interessar e se aproximar de coisas diferentes, de novidades. Mesmo que tomem um susto inicial, o interesse e a curiosidade acabam vencendo, e logo percebem que o objeto novo não é um bicho de sete cabeças, mesmo que não seja algo legal ou divertido – um simples guarda-chuva, por exemplo. Mas, alguns cães, ao verem objetos, sons ou qualquer estímulo diferente, imediatamente acreditam ser algo perigoso, ameaçador, sem sequer ter coragem de se aproximar. E mesmo que esse estímulo não faça nada de assustador, simplesmente por ser uma novidade, é encarado pelo cão como algo ruim.

Compreendendo esse ponto, o que devemos fazer para ajudar o cão a ser o mais corajoso e destemido possível, é sociabilizá-lo desde pequeno. Dos 45 dias até o 3º mês de vida, a chamada “janela de sociabilização”, é a época ideal para apresentar o filhote aos mais variados estímulos, sempre de forma gradual. E lembrando que eu disse anteriormente, que mesmo que o estímulo seja neutro, sem graça, dependendo do cachorro ele pode se visto como algo ruim, é necessário sempre associar estímulos novos com coisas boas – ou seja, sempre que ele encontrar algo diferente, deve receber um petisco, um carinho, um elogio.

Dicas para melhorar a vida do seu cachorro

Existem alguns pontos principais para aprender a lidar com o(s) medo(s) do seu peludo, e acredito que muitas pessoas desconheçam, e até foram ensinadas a fazer o contrário:

Procure reparar e tratar o medo do seu cão assim que perceber que ele existe. Muitas vezes, principalmente com filhotes, as pessoas esperam que com o tempo o peludo fique mais corajoso, aprenda a lidar ou acostume com aquilo que teme. Mas geralmente, quando se trata de medo, o contrário acontece: quanto mais o tempo passa, mais o medo se agrava, sendo muito mais difícil atenuar depois que o cão já teve muitas experiências negativas.

Não obrigue o cão a enfrentar seus medos à força. Algumas pessoas incentivam o cão a se aproximar de algo assustador, muitas vezes até levando no colo ou puxando o cão nessa direção, com a intenção de que ele percebe que não há o que temer, mas na cabeça do cão, o dono está literalmente jogando-o em direção ao perigo. Dependendo do cachorro, em vez de dessensibilizar, isso pode sensibilizar ainda mais, causando um trauma.
Pense numa pessoa que tem fobia de aranhas; por acaso ser obrigada a segurar uma aranha, por menor que ela seja, vai ajudá-la a gostar desses bichos? O que pode acontecer é a pessoa “congelar” e perder a capacidade reativa, mas não significa que ela esteja curtindo a situação. O mesmo acontece com os cães; param de reagir se expostos a algo, mas não aprendem a gostar. Portanto, nunca force um cão medroso a se aproximar do que ele tem medo, mas guarde uma distância na qual o pet sinta-se seguro o suficiente para olhar o objeto. E principalmente, fique com ele, elogie, agrade-o e mostre para ele que está tudo bem, sempre de forma positiva e alegre. O tom de voz tem um poder enorme nessa hora, e é importante permanecer calmo e controlado, para ajudar o pet a se controlar. Petiscos também ajudam a associar o estímulo ruim com algo positivo.

Observe as pequenas reações do seu cão, pois elas indicam o grau de estresse que ele está sentindo. Muitos tutores falham em reparar nesses detalhes, e quando dão por si, o peludo já está esperneando, tentando fugir, ou ainda latindo e rosnando tentando se defender. As expressões de medo clássicas, como enfiar o rabo entre as pernas e colar as orelhas à cabeça já são conhecidas, mas lamber rapidamente o nariz, desviar o olhar, sentar-se de costas ao estímulo, farejar compulsivamente o chão (sem que haja algo interessante lá) ou bocejar (sem estar com sono) estão entre os comportamentos que indicam ansiedade ou estresse, e podem indicar que o cão está numa situação onde possivelmente se assustará ou reagirá. Se entendemos e atuamos diante desses sinais, retirando o cão da situação, evitamos o susto, e o cão sentirá mais confiança nas pessoas e a certeza de que está protegido.

– Falando em evitar, é muito importante evitar, sempre que possível, que o cão passe por sustos e medos desnecessários, como por exemplo, cães que tem medo de trovões em temporadas de chuva, onde o ideal é que já fiquem em ambiente interno, de preferência com algum isolamento do som (ou mesmo uma TV ou rádio ligado encobrindo os barulhos externos). Muitas pessoas pensam que devem deixar que o cão lide com alguns medos sozinho, pois acreditam que naturalmente o pet entenderá que não há nada a temer – esse conceito errado acontece principalmente com cães que tem medo de outros cães, e são soltos em parques ou cachorródromos na esperança de “sociabilizar”. Mas, assim como em pessoas, muitas vezes o medo é quase “irracional”, e não é possível controlá-lo, mesmo que seja uma situação corriqueira ou rotineira. Portanto, é preciso evitar que o cão passe por situações assustadoras sozinho, estando presente quando elas acontecerem para poder controlar, na medida do possível.

Paciência é a chave do sucesso

E acredito que o conceito mais importante para lidar com o cãozinho medroso e tratar esse problema tão difícil, é ter paciência. Com o treino adequado, o cão vai evoluir na velocidade dele, e não existe receita ou mágica que possa acelerar o processo. Muitos casos até nos supreendem durante o adestramento, onde cães muito medrosos se tornam calmos e confiantes rapidamente, porém na maioria das vezes, o treinamento de um cão muito medroso pode ser demorado. E em muito casos, o cão não vai se tornar o bichinho mais confiante do planeta, mas pode sim melhorar muito sua qualidade de vida, conseguindo ser sociável e ter uma vida mais normal, com algumas limitações. Basta ter persistência, compreensão e muito amor para ajudar o peludo!

*** Por Juliana Nishihashi, Adestradora e Consultora Comportamental da Cão Cidadão